Assembleísmo

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Essa excelente matéria que saiu na revista da Folha pode gerar um bom debate sobre o assembleísmo.
Que acham?
André.

CRÔNICA DE UMA ASSEMBLEIA DE ALUNOS DA USP EM GREVE, UM DIA DEPOIS DOS TUMULTOS COM A PM
Estudantes se reúnem em assembleia na USP, na última terça, em protesto contra o uso da força ela PM

questão de ordem
por Leticia de Castro

Quarta-feira chuvosa, véspera de feriado. O prédio das faculdades de História e Geografia da USP está tomado de cartazes pedindo a renúncia da reitora, Suely Vilela, e a manutenção da greve que paralisa a universidade desde o início de maio.

Às 18h, começa uma assem-bleia de estudantes de geografia. No centro acadêmico, estão acomodadas cerca de 150 pessoas. É o primeiro encontro depois do confronto do dia anterior, quando a PM usou bombas de efeito moral contra estudantes e funcionários.

O objetivo da reunião é discu-tir o embate e o encaminhamento da greve. Cada participante tem três minutos para falar. Cabe a uma estudante apontar a plaquinha, de papel sulfite, ao orador: "Conclua". Em meio a propostas pontuais, como escrever um documento sobre os objetivos da greve e encaminhar à imprensa, surgem as polêmicas.

Eis que se levanta um jovem de óculos e cabelos encaracolados que propõe uma greve de fome para provocar mais impacto e chamar a atenção das autoridades para as reivindicações. "Assim quebramos a moral do inimigo, que valoriza a gula e o consumo", diz o estudante. "Vamos para a ação direta dialética no sentido de pensar moralmente."

O palavrório não encontra eco. A proposta nem é votada. Do microfone, surgem também críticas ao próprio movimento. "Falta ideia para a gente. Nós somos uma máquina de retórica. Ficamos discutindo se vai ser 'fora PM', 'abaixo PM' ou 'basta PM'", brada um irônico grevista, que emenda: "Não seria a hora de pensar esse tal projeto de universidade de verdade?"

Na mesma linha, outro estudante, de camisa social, propõe uma paralisação por seis meses, para que seja discutido o "tal no-vo projeto". É aplaudido.

O choque com a polícia é o tema mais quente. Há os que legitimam reações violentas contra a PM e os que as condenam. "O que se ganha reagindo a uma estrutura autoritária?", questiona uma exaltada aluna com o microfone em mão. "Jogar pedras na polícia é fazer resistência à transformação da universidade pública em mercadoria", defende outro.

Sentado e de agasalho azul, um colega pede a palavra: "A polícia ter entrado é emblemático sobre o papel dessa universidade. Ela serve para manter a elite no poder". Enquanto as discussões avançam, um rapaz, notando a cara de "estrangeira" da repórter, pergunta: "Você é jornalista?"

Ao confirmar que a reportagem da Revista acompanha há duas horas a assembleia, ele interrompe o debate. "Questão de ordem", levanta a mão o aluno do segundo ano. "Temos uma jornalista da Folha na assembleia."

Todos os olhares se concentram na "intrusa". Subitamente a pauta da reunião deixa de ser a greve para se tornar a presença de uma jornalista no encontro.

O "assembleísmo" se faz notar. Há os que defendem o direito da reportagem de estar lá, há os que querem negociar algum controle sobre o material a ser publicado. Houve até quem defendesse o confisco do bloco de anotações.

O mediador propõe a votação de duas propostas: continuar a discussão sobre a presença da jornalista ou voltar à pauta. A segunda opção ganha por ampla maioria. Mas a balbúrdia em torno da reportagem faz com que nenhum aluno dê entrevistas.

Só no dia seguinte, por telefone, o mediador fala com a repórter. "Infelizmente, várias vezes a gente teve a presença da grande mídia e as coisas veiculadas acabaram não ajudando o processo de mobilização, porque foram distorcidas", justificou-se João Victor Pavesi, 23, aluno de final de curso de geografia.

A mudança de atitude também foi fruto de debate. "Depois, conversando com alguns amigos, chegamos à conclusão de que não queríamos estar na sua pele", desculpou-se com a repórter.

A reunião perdeu 15 minutos com o tema paralelo, deixando de lado as reivindicações essenciais do grupo, como a retirada da polícia do campus, o fim da Univesp (programa de ensino à distância das universidades estaduais) e eleições diretas para reitor.

Fim da assembleia às 22h. Entre as deliberações, a participação dos alunos na Parada Gay com cartazes sobre a greve. A próxima reunião está agendada para quarta-feira.

Fonte:Revista da Folha Online

Comentários

imagem de GH

Muito interessante; mostra as

Muito interessante; mostra as contradições de nossas assembleias, sem (quase) transparecer uma posição que não a pessoal. Parece ecoar desse texto a frase "a coisa mais fácil que existe é manipular uma assembleia."

imagem de Sacha Kontic

Soa piada... Primeiro

Soa piada... Primeiro discutem como chamar atenção da mídia e depois querem expulsar uma jornalista e não dão entrevista.

Não vi nenhuma foto de cartazes sobre a usp na parada gay.