Reacionário ou progressista?

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Convido os colegas para uma reflexão filosófica. O que é ser reacionário? Ou progressista?

Decidir por uma greve, e depois procurar uma justificativa para ela, e obrigar todos os colegas a aderir a essa greve, impedindo-os de assistir às aulas, é uma postura "progressista".

Os alunos, especialmente os do período noturno, que muitas vezes vão à universidade depois de uma árdua jornada de trabalho e desejam assistir às aulas, são "reacionários".

Os filhos da classe média e alta paulistana, que jamais pisaram num chão de fábrica (grande maioria dos alunos da USP), e que ficam repetindo velhos slogans dos anos 1960 contra a "repressão" e em defesa da "causa operária" na universidade são "progressistas".

Esses defensores da "causa operária" (o que é causa operária hoje?) são partidários de sistemas políticos que hoje só são adotados por dois países em todo o mundo, e que estão entre as ditaduras mais repressoras e retrógadas que ainda existem. São eles "progressistas"?

Quem é contrário a esses sistemas políticos é "reacionário"?

Um exemplo para pensar: conheço um aluno que acabou de se formar em Ciências Sociais, mas que ainda participa do movimento estudantil. É um dos primeiros a propor e participar de greves e outras formas de protesto dentro da universidade. Mas, na empresa onde trabalha, uma grande editora, que publica uma revista semanal que sempre apoiou (e apoia) um dos atuais postulantes a sucessão do atual presidente, faz um silêncio ensurdecedor quando colegas são demitidos, ou quando outros trabalham em condições muito piores que as dele (como free-lancers ou temporários, sem vínculo empregatício nem direitos trabalhistas). Esse estudante é reacionário ou progressista?

O que é verdadeiramente ser progressista ou reacionário? Ser "comunista" dentro da universidade, propor greves que resultam apenas em aulas suspensas que não são repostas, e com aprovação automática para todos (na greve de 2007, pelo menos dois professores da Filosofia aprovaram todos os alunos com nota 10) é ser "progressita"? Quem é contra esse tipo de coisa é "reacionário"?

Quem estuda em uma universidade pública, mantida com o dinheiro de todos os brasileiros (inclusive com o daqueles que jamais terão a oportunidade de pisar em uma universidade pública) tem o dever moral de retribuir à sociedade o que recebeu. E, portanto, tem o dever de manter, proteger e conservar a universidade. Será que é apenas fazendo greves e defendendo ideias de anteontem é que se consegue isso?

No fundo, muitas pessoas que se dizem "progressistas", ou "de esquerda" são muito conservadoras, ou "reacionárias". E pode ser que algumas pessoas rotuladas como "reacionárias" sejam mais "progressistas" do que a "esquerda uspiana".

Ou não?

Comentários

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Colega, O problema não é a

Colega,

O problema não é a defesa de um modelo político ou outro. O problema são as frequentes greves, que prejudicam os alunos e afetam a qualidade do curso (que, convenhamos, deixa bastante a desejar).

Não sou contra a greve. Trata-se de um instrumento legítimo de reinvidicação, que pode e deve ser usado quando necessário. O que sou contra é primeiro decidir pela greve (a deste no já está decidida desde o começo do semestre) e depois procurar uma razão para ela.

Democracia não é apenas a opinião da maioria. É também o respeito pela minoria, e particularmente o respeito pelas pessoas que discordam de nós.

imagem de Douglas Anfra

Nelson Reacionário não é o

Nelson
Reacionário não é o contrário de progressista, mas de revolucionário. O termo que se opõem à progressita normalmente é conservador.

Isto diz respeito aos contextos revolucionário, e não da revolução socialista, mas justamente da revolução burguesa (aos olhos do socialista), da revolução francesa sob a bandeira do iluminismo e do progresso da humanidade. Aliás, de lá também tem origem os termos direita e esquerda, referindo-se lá a ambos os lados da assembléia onde se assentavam os representantes dos moderados (girondinos), os girondinos propriamente ao centro e os jacobinos na esquerda.
Além disso, outro termo que se descola e é liberal de origem, é radical.

Todos estes termos estarão em questão hoje, como você coloca e são disputados por correntes políticas, ou melhor, são utilizadas comparativamente para entender por analogia os fenômenos políticos recentes, mesmo que em outro contexto.

É muito comum identificarmos hoje muitos anseios liberais, radicais ou não, ao socialismo, porque estes foram abandonados pela burguesia como classe, ao passarmos para outro contexto que deixa para trás a nobreza e o clero, e põe frente a frente donos de meios de produção e trabalhadores em geral, ligados como você observa em parte nas diferentes malhas de posse jurídica e controle dos meios de produção, além dos mecanismos de garantia da reprodução das relações de produção.

Como exemplo, pode-se citar que Adam Smith era um defensor dos direitos dos trabalhadores e tinha princípios morais estritos sobre as relações sociais a ponto de defender greves, mesmo que nenhuma pessoa que seja hoje "liberal" defenda tais direitos, eles ainda assim podem se reinvidicar liberais, mas, como pode deduzir, defender greves, mesmo que apoiado em Adam Smith, baseado na relação entre o valor dos salários em relação à circulação de riqueza, estará mais comumente presente na argumentação de um keynesiano ou de um marxista. E, mais ainda, se um keynesiano é de esquerda por defender direitos dos trabalhadores, ele o faz no contexto de um defesa da sustentação estrutural do próprio sistema capitalista e não de uma radical negação da exploração do homem pelo homem.

Por outro lado, um sindicato pode muito bem servir para apenas gerir os trabalhadores dentro de uma negociação com o Estado ou com a empresa capitalista, servindo muito mais para regular o preço da "mercadoria" trabalho do que ser, como você disse, progressista.

Para conseguir em nosso contexto entender o que acontece em relações de poder específicas como as relações entre trabalhadores e donos de meios de produção, ou com o Estado, deve-se entender o que acontece nos conflitos concretos observando, por sua vez, que muitas das bandeiras são parecidas mesmo com as do iluminismo até hoje, como os diversos direitos que se reinvidicam.

A principal diferença é que, no contexto atual, tanto o fato de ser progressita como conservador (conquista ou negação de direitos) liga-se à compreensão das relações materiais que nos ligam aos contextos diversos, como pode ser observado no contexto da universidade naquilo que escreveu o José Calixto, por exemplo.

Parar aulas é claro pode ser para proibí-las, como no regime militar, mas pode ser, simplesmente para discutir seu rumo, mudar seu curso, caso se aproxime de um abismo ligado a medidas de gestão abominável, à transformação de sua estrutura em um estamento vigiado e à redução de direitos que determinam a garantia do padrão de vida mínimo para que possam viver e trabalhar. Note que isto é bem longe de uma revolução socialista.

imagem de zecalixto

sua postura nelson é

sua postura nelson é nitidamente reacionária. veja o que vc postula por exemplo no caso da greve:

"Decidir por uma greve, e depois procurar uma justificativa para ela, e obrigar todos os colegas a aderir a essa greve, impedindo-os de assistir às aulas," --------- greves que resultam apenas em aulas suspensas que não são repostas, e com aprovação automática para todos (na greve de 2007, pelo menos dois professores da Filosofia aprovaram todos os alunos com nota 10) é ser "progressita"? Quem é contra esse tipo de coisa é "reacionário"?--------Será que é apenas fazendo greves e defendendo ideias de anteontem ..

a greve é decidida num forum democratico que é a assembléia dos estudantes. ela é divulgada amplamente, convocada por uma gestão eleita democraticamente, e só delibera greve iante de uma pauta especifica. ou seja ela tem justificativa e representatividade. a greve significa a suspensão das aulas mediante deliberação da assembléia. quem desrespeita tal deliberação coletiva é anti-democratico e individualista, uma posição que segue os interesses individuais face o interesse coletivo o que é nitidamente conservador, reacionário. é claro que o interresse coletivo pode ser conservador, mas ai cabe a assembleia e a participação daqueles que acham que o caminho esta errado irem até la e fazer a sua parte. greves não resultam apenas em aulas suspensas: resultam em contratação de professores, em garantia da autonomia universitária, em aumento salarial, em direitos estudantis, em oposição politica a projetos privatistas da educação publica. na greve de 2007 apenas tres professores nitidamente contra a ocupação da reitoria fizeram uso da aprovação automática e não repuseram as aulas. estes eram nitidamente conservadores, sendo que um deles é contra qualquer tipo de greve, por exemplo. a grande maioria aderiu à greve e repos aulas conforme o deliberado pela congregação da faculdade.

conservador é aquele que quer manter o estatus quo da exploração do homem pelo homem. progressista é o quer superar tal fato. os que estão em movimento em geral, ao menos, buscam tranformar, melhorar, lutar por um mundo mais justo. os que se conformam com o mundo tal qual, que resolvem apenas se adequar e cumprir sua função basica(produzir uma universidade para o mercado) sÃo conservadores. vc diz, conservar a universidade que recebeu. o progressista não seria aquele que justamente que transforma-la? para ampliar seu acesso? melhorar sua função social...

mas verdadeiramente este é um longo debate. e na história as posições progressistas podemse interverter. mas ai é inelutavel que ao menos tenhamos tendado sair do marasmo, do conformismo, do imobilismo, do pré-conceito.

imagem de Nelson

Colega, Reacionários são

Colega,

Reacionários são certos regimes políticos que, em nome do "proletariado", promovem as ditaduras mais cruéis e represssoras ainda existentes no planeta (para não falar de certos regimes teocráticos). E também são aqueles que se apegam a ideologias de anteontem e se recusam a abrir os olhos para a realidade.

Quanto a muitos defensores da "causa operária": conheço um que acabou de se formar em Sociais na USP, trabalha em uma grande editora (que apoia a candidatura de um candidato de oposição à presidência da república) e que é o primeiro a propor greves na USP, mas faz um silêncio ensurdecedor quando colegas de trabalho são demitidos ou não têm os direitos respeitados.

É fácil ser "comunista" na USP. Quero ver é ser comunista na vida real...

Quanto às "assembleias", delas participa uma ínfima minoria dos estudantes da USP, e as decisões tomadas visam a atender interesses políticos de certos defensores da "causa operária" (que jamais pisaram em um chão de fábrica na vida). Não representam de maneira nenhuma o pensamento da grande maioria dos estudantes da USP. Tanto isso é verdade que as greves geralmente se restringem à FFLCH, uma das poucas onde esses partidários da "causa operária" ainda têm alguma penetração. Na sociedade em geral, basta verificar quantos votos esses defensores da "causa operária" obtêm nas eleições... Na última eleição para prefeito da capital, conseguiram perder até do Levy (aerotrem) Fidelix e do Renato Reichmann (?)...

Quanto aos professores que aprovararam todos os alunos, o que era explicitamente contra a greve (o que é um direito dele) não aprovou todos os alunos com nota 10. Os que fizeram isso foi um já bem veterano na USP e outro famoso por suas aulas de "uma hora". Não sei se houve mais professores que fizeram isso. Das três matérias que fiz naquele lamentável primeiro semestre de 2007, apenas um professor (o com menos tempo de universidade) repôs algumas aulas.

Não acho que a universidade pública deve servir apenas para "formar profissionais para o mercado de trabalho". É muito mais do que isso. A universidade pública serve para formar pessoas mais conscientes, com senso crítico, e que de alguma maneira vão retribuir para a sociedade o que receberam dela.

Isso é ser progressista.

imagem de Gestão

Oi Nelson, Adorei a

Oi Nelson,

Adorei a sugestão... Mas você não gostaria de levar essa discussão par ao fórum (deletar o blog e postar lá antes que começemos a discutir)... A questão é que estamos tentando fazer a diferença de blog e fórum pegar... Rsrs,

Abraço