A faca real, por Hans Magnus Enzensberger

imagem de Dimitrios Valentim

Havia, porém, milhares num porão
ou um sozinho consigo ou dois
e lutavam entre si um contra o outro

Um era quem dizia A Mais-Valia
e não pensava em si e não queria saber
nada de nós recitava A Doutrina
O proletariado e a Revolução
Palavras cultas na sua boca como pedras
E também levantava as pedras
e as jogava E tinha razão

Não é verdade E era o outro
que o dizia Amo apenas a ti
e não a todas Que fria esta minha mão
E a dor devoradora no teu fígado
não consta nas senhas Não
morremos ao mesmo tempo Quem
terá razão quando estamos contentes? E tinha razão

Mas E assim continuava o outro Doravante
não posso pôr atrás o teu
pé Quem sabe tanto quanto nós
não se ajudará tão facilmenbte a si mesmo e Eu
não conto mais Por isso
entre no partido etc. Mesmo se
não tivermos razão E tinha razão

Desde sempre sabia que aquilo
que tu mesmo não crês
Dizia o outro Diante de nós
Como uma faca levas Porém aqui
já está cravada até o cabo
na tua carne A faca
A faca real E tinha razão

E então morreram um e outro
também Mas não ao mesmo tempo
E morreram todos E então
gritavam e lutavam uns contra os outros
e se amavam e se alegravam
e oprimiam-se uns aos outros
Milhares num porão

Ou um sozinho consigo mesmo ou dois
E se ajudavam E tinham razão
Não se podiam ajudar um ao outro