Uniforme velho e remendado (mas de ótima aparência) para doação. Algum interessado? (para o Jornal)

Existe alguma tarefa para aqueles que a Universidade forma nos dias de hoje? Se há algo a fazer necessitamos, pois, de um uniforme?
A partir desta pergunta, gostaria de compartilhar uma antiga experiência que ainda não se perdeu em meio a alguns fatos vivenciados e que costumam ter pouca relevância em nossas vidas. Algo que considero bem curioso e importante.
Aconteceu havia dois anos, em meio à última grande greve pela qual a USP passou. Ocorreram algumas palestras na FLLCH destinadas aos vestibulandos. A cada dia era ministrada uma palestra sobre algum dos livros cuja leitura é obrigatória para o vestibular. Lembro-me claramente que, após uma belíssima palestra sobre o livro “Vidas Secas”, eu e uma amiga ficamos reunidas no vão do prédio da História e Geografia com vários veteranos dos cursos de humanas que conhecemos no próprio dia.
Primeiramente, conversávamos a respeito da obra. O assunto prolongou-se e acabamos recaindo em outros livros. Era inevitável! Foi então que me fizeram a seguinte pergunta (permitam-me, por favor, descrever o diálogo que se deu naquela noite):

- Dentre as leituras obrigatórias para a FUVEST, qual mais a agrada?
Sem titubear, respondi:
- Vidas Secas, sem sombra de dúvidas!
Minha amiga em seguida acrescentou (falando por mim, uma vez que era o que realmente pensava e penso):
- Ela prefere Graciliano a Machado de Assis ou Guimarães Rosas.
Paro aqui para uma pequena análise: Reconheço que cada um de nós está sujeito a falhas de comunicação, que temos nossas singularidades e isso influencia diretamente nossas interpretações. Mas peço para que, antes de seguirem com a leitura, pensem a respeito do que ficou implícito neste pequeno diálogo que expus.
Feito isso, direi qual foi a reação do GRANDE (repito: GRANDE) grupo:
- Como você pode desconsiderar grandes autores como Machado e Guimarães Rosa?!
- São eles inferiores a um autor como Graciliano Ramos?
- Justo o Machado! Você sabe que ele é objeto de pesquisas no exterior? Sua obra é mais grandiosa do que você possa imaginar!
Quando percebi que eu e minha cara amiga havíamos sido mal interpretadas, tentei explicar-me:
- Na verdade, reconheço que tanto Guimarães como Machado são grandes autores, de notável importância para a literatura brasileira. Já li livros de ambos (não todos), mas, particularmente, identifiquei-me com a história dos retirantes retratada em Vidas Secas. Mesmo sendo um pequeno livro (em comparação com outros, obviamente), ele tem algo de muito humano que me atingiu profundamente. Apenas isso! Não estou desconsiderando ou desvalorizando grandes autores.
E então, após a tréplica:
- Moça! Você ainda muito tem a aprender com a FFLCH. O que você e sua amiga disseram acaba sendo o mesmo que preferir Cauby Peixoto a Chico Buarque.
- Pois está aí outro exemplo: as letras do Chico, a meu ver, são grandiosas, mas não é o meu cantor e compositor preferido. Ainda prefiro Nelson Gonçalves, Aldir Blanc e até Zeca Pagodinho (risos).

---------------------------fim do diálogo-------------------------------------------

Ecoaram-se grandes risadas acompanhadas de um forte olhar de reprovação, garanto-vos!
Naquele dia li nos olhos dos que ao meu redor estavam que ali não era o meu ambiente, que não tinha o perfil de uma aluna da FFLCH, que não vestia a camisa ideal e que tinha grandes falhas de argumentação.
Agora, pergunto a vocês, caros leitores, se já captaram a forte crítica que os “fflchianos” fazem à estrutura estereotipada da sociedade contemporânea, acrescento, capitalista, desigual, esvaziada de sentido, hipócrita, injusta etc etc etc...
Concordo com e penso muito em tais críticas. Além do mais, acredito que não somente há este exemplo, mas muitos outros que comprovam o quanto os clichês, que preenchem nossa existência tão vazia, estão fortemente presentes até mesmo em grupos que acreditam carregar o novo, o belo, o melhor! Muitas vezes, não percebem o quanto seu discurso revolucionário e seus hábitos são profundamente semelhantes ao daqueles que tanto criticam. Mesmo acreditando que se destacam e se separam ao proferir o saudosista discurso da abdicação e da ruptura, na verdade, seu discurso é o da “não-abdicação" ou "não-ruptura" e isso é perfeitamente visível nos seus atos.
Nova greve aproxima-se, nossos uniformes se transformarão em fardas e continuaremos a reproduzir contradições?
Por fim, convido-vos, caros leitores, a duas coisas:
1ª: Reflitam sobre qual é o papel da Universidade Pública na nossa sociedade e até qual ponto fizemos e fazemos algo verdadeiramente interessante para ela;
2ª: lembrem-se do seguinte trecho de uma música do Belchior:

minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais
(não consegui colocar este trecho da música em Itálico)

Comentários

imagem de Douglas Anfra

Que vocês gostavam de ler na época do vestiba?

Aposto que foi o Zé Calixto que falou aquilo! rsrsrs
Mas falando sério, o que cada um que está aqui, por exemplo, gostava mais na hora que prestou o vestiba?
Eu sempre achava a única parte positiva do vestiba a leitura obrigatória, pois as pessoas voltavam a ler os crássicos!
Eu lembro que na época, da lista do vestibular, o que eu mais gostei foi Lima Barreto e Eça de Queiroz - sério - muito mais que o Machado!
Mas na vida privada era ficção científica e livros esquisitos (Tipo Clive Barker, J.G. Ballard, etc).
Mas isto eu acho que foi por causa da mudança de leitura do que se vê no texto. Eu só passei a prestar atenção no narrador como algo importante no texto muito depois.
E pra isso, precisei passar a prestar atenção em outras coisas, ter outras leituras e tal. Na época eu seria contra as sutilezas machadianas, totalmente, achava um troço muito suave e totalmente burguês.
Agora o modo como o cara passa, aquele que te dichavou, em termos de gosto, aí, só o Bourdieu pra explicar.
Há infinitos modos de se colocar como classe e estratificar pelo gosto, no caso, literário, que vão muito além de apresentar o que haveria de interessante no Machado, por exemplo.

imagem de GH

Garota, eu acho que é isso

Garota,
eu acho que é isso mesmo que você disse. Há uma padronização da própria crítica à padronização. Como é que pode?
Acho que, mesmo simples (o que para muitos poderia se constituir um defeito), esse é um dos textos mais conciêntes e reflexivos que vi aqui pelo site.
E Zé, você não compreendeu nada do que esse texto nos coloca, pois ele questiona exatamente essa posição que você de pronto afirmou, para criticá-lo. Acho que ele é mais complexo do que parece a uma primeira vista.

imagem de zecalixto

é que pra mim a padronização

é que pra mim a padronização é apresentada as avessas pelo texto: padronizados são aqueles que nem tentam questionar o mundo ( a maioria). padronizados e uniformizados são os que saem falando que os que lutam e tentam buscar alguma ruptura são os que não querem a ruptura!!! "Mesmo acreditando que se destacam e se separam ao proferir o saudosista discurso da abdicação e da ruptura, na verdade, seu discurso é o da “não-abdicação" ou "não-ruptura" e isso é perfeitamente visível nos seus atos." sem dar nome aos bois a autora coloca todo o discurso questionador no mesmo saco da hipocrisia. e discurso saudosista me parece a frase do belchior ao fim do texto. totalmente descontextualizada e colocada como uma máxima!

acho o texto esteriotipante, acho que ele veste tudo com uma roupa igual, na contra-Mão do que seu titulo ironicamente pretende denunciar. coloca a fflch num saco só. a militancia questionadora na gaveta dos conservadores. coloca a propria crítica num padrão geral sem dizer extamente qual ele é. voce diz "há uma padronização da própria crítica à padronização" de que estamos falando? de literatura brasileira? da crítica à universidade? ao capitalismo?

quanto ao início do texto eu também adoro o graciliano! mas pra mim o que devia estar em questão são os critérios na comparação das obras de arte. no texto o critério apresentado na contra resposta do grupo foi o "- Justo o Machado! Você sabe que ele é objeto de pesquisas no exterior? Sua obra é mais grandiosa do que você possa imaginar!" como se repercussão no exterior determinasse a qualidade da obra, vide paulo coelho. e o segundo argumento é totalmente subjetivo e de poder.

para comparar obras de artes, o que é bem melhor que comparar autores em abstrato, é preciso indicar critério objetivos da constituição das obras: forma, material, tema, narrador. só pra não ficar no gosto é que nem nariz, cada um olha só a ponta do seu...
ou então pra não ficar nesta opiniões rápidas e sem critério claro que para mim o texto aparece repleto.

mas parabenizo a escritora pela publicação e pelo debate que de seu texto se segue! cordialmente.

imagem de Gestão

Muito bom o texto,

Muito bom o texto, Marguerite. Ainda mais a visão trágica por de trás da frase do Belchior (podemos querer ser diferente, mas ser diferente é mais do que o querer, é o fazer). Enfim, é um texto que exige reflexão... Gostei mesmo.

imagem de Douglas Anfra

Muito bom o toque

Gostei, mesmo que goste mais do Machado e do Guimarães Rosa, mas não é só isso. Mesmo que não estivéssemos falando de literatura, está pressuposto um determinado olhar e um modo correto de ver as coisas que vai além de ser de esquerda e direita.
Senão vejamos, este prédio ensiou ao país que estudar Marx não quer dizer ser de esquerda (digo Fernando Henrique e o professor Gianotti) nem militante, nem nada disso. Ou mesmo estudar autores de direita não significa sê-lo, já que citamos Marx, ele escreveu uma crítica da economia política, lendo todos os autores mais reacionários da época sobre a exploração do trabalhador, da exploração de crianças (vide o capítulo sobre amanufatura n'O Capital) e do elogio da modernização conservadora. Por outro lado há os diversos tipos de leitura de Marx de esquerda que indicam coisas diversas.
Mas além disso tem as modulações, o modo certo, corporativo e uspiano de se portar e dentro dalí, o modo específico de sê-lo. Machado lido pelo Roberto Schwarz é um, pelo Bosi é outro e ambos são de esquerda e seus discípoulso se degladiam.
Este espaço existe antes de nós entrarmos aqui e nos darmos conta do que acontece. Mas aqui de nossa "humilde" posição cabe ter outro tipo de postura sim, mas é difícil, não?
O problema é que o tipo de disputa teórica que se dá aqui dentro aparece depois na hora de direcionar para aquilo que pretensamente deveríamos nos dedicar: ensino, ou melhor, formação, que pressupõem que ensinamos sem ter garantia no que vai dar, no modo como o sujeito vai ler ou entender as coisas, nada disso está garantido.
Mesmo assim, temos de dar os passos nesse sentido, mas é difícil. or aqui, a única pessoa que conheço com este tipo de postura é, obviamente, o Franklin.
Sobre o Graciliano Ramos, mesmo não sendo o meu favorito, é inevitavel não recordar do impacto que me causou, influenciado por outros amigos dos Cadernos do Cárcere. Nossa, ali dá pra pensar muito neste tema, quando vemos a relação entre os presos políticos e comuns.
Abraço. Ótimo o toque e é legal pra pensarmos em outras questões até, como a formação política, o fato, ocmo lembar o Zé Cabrito do abandono dos mais novos por outras gerações mais velhas, quando estes entram na política da representação discente e vota e meia têm de lidar com rojões da pesada, muitas vezes sozinhos e arcando com as conseqüências boas e ruins.

imagem de zecalixto

em geral cara colega, nas

em geral cara colega, nas greves me parece que é um dos poucos momentos em que se discute o que a universidade e é e para que ela serve. como seu próprio texto indica.

acho que a fflch é um poucos dos locais da usp que ainda guarda maior diversidade de pensamento... no resto todos parecem ter aderido ao pensamento unico do capitalismo.

não somos os mesmos , nem vivemos como nossos pais. belchior foi bem conservador nesta daí. a moral mudou, o capitalismo mudou, talvez somente a arte ainda definhe, ao lado da filosofia... se voce é igual teu pai espero que ele seja bem legal!