Panis et... Vôo 447

Quando estava ainda no ensino fundamental lembro-me muito bem que a professora de português, tentando fazer com que pensássemos no mundo em que vivemos e fazendo uma crítica aos meios de informação, nos questionou por que os jornais não exibiam reportagens sobre a vida comum; pessoas que vão a feira, outras que trabalham, aquelas que pegam ônibus, enfim, por que não se noticiava o dia-a-dia de um trabalhador comum, por exemplo, ao invés de se veicular somente tragédias. Levantei o braço e falei que se assim fosse, não se venderia nenhum jornal pois ninguém iria comprá-los.

O avião da Air France caiu no mar há mais de duas semanas. Foi uma tragédia que vai marcar a história; jornais, televisão, rádio dão o devido enfoque ao assunto. Não é isso que questiono, acho que um fato desta magnitude deve ser noticiado, e bem noticiado, para que se crie uma comoção e para que as autoridades cuidem para que ele não se repita. O que questiono é a validade de algumas reportagens que descrevem detalhes sem qualquer importância do acidente. Em segundo lugar, o uso que se faz destas reportagens.

Se pensarmos no jornalista que redigiu o texto, qual o intento dele? Escrever uma reportagem cujo assunto é o destino dos corpos achados no fundo do mar, qual motivação teria alguém para noticiar algo assim? Vender.

Bruno Bettelheim em seu “Psicanálise dos Contos de Fadas” nos diz que, para que um conto de fadas seja eficaz, você não deve alterá-lo em seu texto original. Deve lê-lo para a criança sem alterar o conteúdo da história, por pior (no sentido de medonho) que ele seja. A criança, na formação de seu pensamento como instrumento simbólico que traduz sua interioridade para o exterior social, é que deve formar as associações, ligar a bruxa e sua maldade aos seus próprios conteúdos obscuros, ligar seus sentimentos de raiva à destruição presente na história. É assim que algumas pessoas pensam que alguns contos de fadas são macabros, ou tristes. Na verdade até o são, mas são saudáveis às crianças, que podem buscar instrumentos de extravazar sua tristeza e sua raiva, por exemplo, através das histórias que simbolizam isso, que lhe fornecem possibilidade para isso. É assim que, se um adulto imprime sua subjetividade na história, alterando seu conteúdo ou emitindo opiniões, ele destrói esta capacidade do conto.

Filmes, peças de teatros, livros e, também, notícias constituem-se nos nossos “contos de fadas” adultos. Assistimos àquele militar atirando em mil e uma pessoas, ou aos serial killers que montam um grande suspense a ser desvendado no final do filme, em parte para veicular este nosso conteúdo anti-social não expresso. Estas pulsões contrárias à vida em sociedade acham meio de surgir de nosso inconsciente através dos filmes, que as viabiliza e as realiza. É assim que sentimos um certo prazer ao assistir esses filmes violentos. Assim também notícias sobre o destino dos corpos do acidente aéreo nada mais parecem a mim do que as mesmas tentativas de mobilizar uma determinada platéia. Nossa “curiosidade macabra” procura, até o limite que cada super-ego impõe a cada um, os detalhes mais sórdidos da tragédia. Nossos instintos mais obscuros e que não podem aparecer no dia-a-dia, são satisfeitos com estes detalhes. Mas qual o intuito desta mobilização?

A primeira é evidente, é a venda do jornal, ou do magazine, ou audiência na televisão. Infelizmente em um mundo onde tudo tem seu preço e onde tudo é vendido, vale utilizarmos de tais subterfúgios para mobilizarmos uma população estafada e saturada de violência urbana.

O segundo é mais sutil. Enquanto se veiculam notícias como estas, deixa-se de prestar atenção a outros fatos importantes que estão ocorrendo. Por exemplo, a greve na USP (ou a movimentação dos servidores públicos do Estado de São Paulo em busca de aumento de salário, e muitas outras notícias não divulgadas). Navegando nos três grandes portais de notícias na internet (UOL, Terra e Globo) não se vê sequer traço da paralização, que já dura mais de um mês e que já teve até guerra entre policiais e alunos, ao velho estilo de repressão da livre expressão. Qualquer lembrança de ditadura é mera coincidência. Desta forma, este é um fato que está passando em branco. Muita gente não sabe. E, a despeito de concordar ou não com a greve, pois esta opção não é dada uma vez que nem se sabe que está havendo guerra, muita gente não sabe que ela está sendo abafada pela polícia da maneira ostensiva e pela mídia.

Desta forma perversa é que se manipula a opinião pública veiculando-se aquilo que mata a fome do povo por circensis, e encobrindo-se outros fatos importantes e fundamentais para a sociedade. Por que não noticiam que uma das hipóteses de o avião ter caído foi possivelmente o fato de não terem trocado os sensores do avião? Sensores novos teriam chegado em cima da hora e a empresa, não querendo atrasar os vôos (não se pode parar de produzir, não se pode parar de lucrar!), optou por não trocá-los. Por que não noticiam que um dos culpados é o capitalismo? Seria atirar no próprio pé.

(Texto extraído de Loucurólogus; Psiq)

Comentários

imagem de Alexandre Loch

Excelente dica. Estou

Excelente dica. Estou baixando já.
Com certeza não trabalha para isso, é apenas um reflexo da consciência de classe. Assim como coisas que nos diz respeito de uma maneira mais funda e teoricamente estruturante como teorias da nossa constituição psíquica como a psicanálise, a psiquiatria, etc (Guatarri).

imagem de José Carlos

Achei bastante interessante o

Achei bastante interessante o texto. Suscita várias coisas a serem discutidas...

imagem de Anônimo

Texto infantil.

Texto infantil.

imagem de Alexandre Loch

Boa sacada...

Boa sacada...

imagem de zecalixto

haneke

caro alenxandre, indico aqui um filme que voce consegue baixar no piratebay via torrent do michael haneke.
levei um susto quando no filme vi que as noticias de 20 anos atraz são as mesmas de hoje. o filme é este aqui:

71 fragmentos para uma cronologia do acaso.

71.Fragmente.einer.Chronologie.des.Zufalls.Michael.Haneke.1994.

voce consegue a legenda depois no opensubtitltes.
a industria cultural até ironiza seus pressupostos, mas jamais vai trabalhar para gerar a consciencia de classe.