Declaração de guerra ao homem sentado.

Cioran: Estamos com raiva hoje?
Nietzsche: Fulos da vida.
Cioran: Por que será que as pessoas hoje em dia não gostam muito de sentir raiva?
Nietzsche: Trata-se da maldita “qualidade de vida”. Em outras palavras: trata-se do consenso “prateleira de farmácia”.
Cioran: Não entendi.
Nietzsche: Tudo muito limpo, muito organizado, medido, feliz, sorridente, saudável... Estúpido, enfim.
Cioran: É a domesticação do homem. Já percebeu como hoje em dia passamos a maior parte do tempo sentados?
Nietzsche: Sentados onde?
Cioran: Em cadeiras.
Nietzsche: Grrrrrrrr. É verdade. Tenho raiva de ficar muito tempo sentado.
Cioran: Sentar é necessário para nossa domesticação. Quando vivíamos em florestas havia a verticalidade, ficávamos em pé, medindo a estatura do mundo a partir dos nossos ombros. Éramos retos, nobres, saudáveis, senhores de nós mesmos.
Nietzsche: Hoje somos curvados, medíocres, escravos, temos problemas de coluna, cultivamos hemorróidas, deixamos de ser eretos para sermos sentados.
Cioran: Sentados, o mundo nos pesa nos ombros que antes o mediam de igual para igual. Ficamos pequenos, acuados, nossa energia foi desperdiçada, ou reconduzida para o trabalho.
Nietzsche: O sedentarismo nos enfraqueceu, a invenção das cadeiras arruinou o nosso espírito. Morte às cadeiras.
Cioran: É preciso dedicar uma raiva fria às cadeiras, mas, sobretudo aos homens sentados.
Nietzsche: Quanto mais confortáveis as cadeiras, mais perniciosos e destrutivos e doentes os homens sentados.
Cioran: Algum homem sentado inventou a passividade... Tenho quase certeza de que foi o Kant.
Nietzsche: E o romantismo então? O romantismo é fruto de um excesso na fabricação de cadeiras a serviço de séculos e séculos de pacificação.
Cioran: Claro, já que sentados a experiência fundamental do mundo foi extinta para nós, em seu lugar chegou até nossos ouvidos antes sadios toda essa conversa mole de “humanização”. Todo humanista é um charlatão chupador de picolé.
Nietzsche: Até nos fizeram trocar nossa vida por um ideal. Não conseguimos mais pressentir a vida. Não sentados, pelo menos.
Cioran: Ficamos prisioneiros sentados, perdemos o essencial, que é o movimento, a prática mágica do caminhar, da caça.
Nietzsche: E chamam isso de processo evolutivo do homem. Sentados não passamos de peças na engrenagem do mundo. Fomos pacificados para isso, deixados em banho-maria no amaciante de roupas.
Cioran: Minúsculos e frágeis, imersos em nossa própria paralisia. Não temos mais vigor próprio, aquele olhar sanguinário, aqueles gestos de desperdício, de emancipação.
Nietzsche: Antes medidos, avaliados, transformados em matéria-prima a ser usada para o bem do progresso.
Cioran: Reis herdavam tronos, mas não para sentarem neles, e sim para não permitir que ninguém sentasse em seu lugar.
Nietzsche: E assim conquistaram impérios, outros reinos, impondo a vitalidade de um povo cujo rei não se resumia a um homem sentado.
Cioran: Reis não sentam. Sentam presidentes, banqueiros, hermafroditas espirituais, vendedores de balão, e publicitários.
Nietzsche: Presidentes são eleitos para ficarem sentados em uma cadeira por quatro anos.
Cioran: Daí a derrocada da democracia, a democracia, ela também uma cadeira onde senta a cabeluda bunda da corrupção.
Nietzsche: De modo que não há diferença entre a cadeira-cadeira e a cadeira-elétrica, ambas nos condenam à morte, à indolência, à preguiça, à mesquinharia, ao rancor e ao farrapo mental.
Cioran: Um belo dia o homem sentou, então lhe cortaram as unhas, os cabelos, serraram-lhe os córneos, e a civilização pode ser construída sobre os ombros do homem sentado.
Nietzsche: Em seguida abriram vagas para secretária bilíngüe.
Cioran: Então sentado, o homem foi ultrapassado pela mulher, porque sentado, o homem amassou seus testículos até transformá-los em um pastel de palmito.
Nietzsche: E as mulheres, que ficaram em pé por estarem lavando a louça, perceberam que aquele era o momento certo para contra-atacar.
Cioran: Então compraram saltos-altos, e ficaram ainda maiores que os homens sentados.
Nietzsche: E mediram a estatura do mundo a partir dos seus ombros.
Cioran: E descobriram o orgasmo, e aprenderam o desprezo, a exercer a excessiva evidência, até que resolveram não mais raspar as axilas e deixar o homem lá, sentado, em sua sinistra construção da apatia.
Nietzsche: O homem sentado é o homem ridículo.
Cioran: O eterno marido preconizado por Dostoievski.
Nietzsche: Aborto gerado de uma anemia, porque sentado o sangue não circula nas veias como deveria.
Cioran: O próximo passo será afinar a voz e sentir prazer em freqüentar o urologista.
Nietzsche: Mas nós nos levantaremos antes. Nós que sentimos raiva.
Cioran: Antes das cadeiras quebrarem por não suportarem mais o peso de nossa frustração, e contra a monstruosidade da paz gerada pelas cadeiras.
Nietzsche: Guerra às cadeiras, ao conformismo, à complacência, à mediocridade e ao feminismo.
Cioran: Guerra à democracia como governo de homens sentados para homens sentados.
Nietzsche: Um rebanho de homens sentados regidos pela pequena ética dos interesses, mastigando capim, degenerando, perdendo para sempre o dom da linguagem.
Cioran: Guerra. Guerra e raiva.
Nietzsche: Raiva. Raiva e guerra.
...
Cioran: Mas Nietzsche?
Nietzsche: Diga.
Cioran: E não sentaremos mais?
Nietzsche: Apenas para coçar frieiras com a régua.
Cioran: E defecar?
Nietzsche: De cócoras.